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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Duffy, primeiras impressões: Stepping Stone (Sophie Müller, 2007) e Well Well Well (Chris Cottam, 2010)

Tenho uma relação singular com o trabalho da cantora Duffy. Quando ela surgiu com a canção Mercy, confesso que a minha reação inicial foi de rejeição (o que até me causou certa estranheza, porque tenho forte inclinação pelo pop britânico e adoro vozes anasaladas). Na minha apreciação, portanto, Duffy largou com desvantagem com relação a Amy Winehouse e Adele, duas outras cantoras made in UK surgidas na segunda metade dos anos 2000, que compartilham um apelo retrô tanto na levada musical quanto no estilo visual. Aconteceu, contudo, de estar um dia escutando rádio (o que nunca faço) e de me deparar com Stepping Stone. Coisa do destino! Foi paixão à primeira audição, mesmo que eu não tenha reconhecido, logo de cara, a intérprete. Imediatamente, corri para Internet imbuído de duas missões: primeiro, buscar o videoclipe correspondente no Youtube; em seguida, encomendar o álbum Rockferry (versão deluxe!). Não me arrependi de qualquer dessas ações.

Com relação ao clipe Stepping Stone, fui brindado com uma surpresa: a obra era assinada por uma das minhas realizadoras preferidas, Sophie Müller. Na sua longeva e ativa trajetória no campo do videoclipe, a diretora alcançou grandes momentos em parceria com outras mulheres igualmente interessantes (Annie Lennox, Björk, Sade, Gwen Stefani, Shakira e Lily Allen). Tendo a marca estilística da eficiente concisão narrativa de Müller e a convincente presença dramática de Duffy, esse vídeo musical reflete, de maneira primorosa, o desalento presente na canção.




Duffy está prestes a lançar o seu segundo disco, Endlessly. Na semana passada, tinha ouvido um trecho do primeiro single, Well Well Well, no blog de Perez Hilton. A canção não me empolgou e temi estar voltando à minha impressão inicial a respeito da artista, algo que não se concretizou, porque logo descobri o que me incomodava nesse caso: certa estridência do verso repetido “well well well”, a que me acostumei e que realmente não lançava sombra ao restante da canção. Melhor ainda, conheci hoje o videoclipe dirigido por Chris Cottam, que, a meu ver, ajuda a colocar Well Well Well em um patamar superior.

Patamar este que está refletido na própria situação e atitude da protagonista do clipe. Se, em Stepping Stone, Duffy coloca um ponto final na condição de capacho de um homem, mas ainda guarda certa dor de cotovelo; Well Well Well, por sua vez, é a virada, quando ela reafirma sua independência (“I’m not guilty of what you’re saying I do/ I’m not that cagey/ But I don’t need to explain”). E assim, no clipe, a cantora é cortejada, seguida insistentemente (por um modelo brasileiro, segundo o Mixbrasil), além de se mostrar capaz de induzir estilosos rapazes de um pub a segui-la numa divertida e descomplicada coreografia. No clima positivo e animado do videoclipe, é bem sucedido o reforço à imagem construída para e pela cantora: uma mistura de sensualidade natural e inocência não infantilóide, que faz clara referência aos bons tempos de Brigitte Bardot. Desse modo, a artista aparece, ao mesmo tempo, como alguém atraente e não ameaçadora, algo eficiente para equilibrar as expectativas de seus públicos feminino e masculino. Da minha parte, devo dizer: fui definitivamente conquistado por Duffy, uma girl next door com  je ne sais quoi.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Produtora: Hide Park (França) – Clipe: My Eternity (Christophe Charrier/Benjamin Siksou, 2009)

O clipe I Want to Go Home (analisado no post anterior) foi feito pela produtora francesa Hide Park, uma subsidiária da empresa de criação audiovisual Troisieme Oeil Productions. Estão à frente da Hide Park o diretor Christophe Charrier e o produtor Pierre-Antoine Capton. Como de hábito no campo de produção do videoclipe, a empresa não se dedica exclusivamente à realização de clipes,  embora concentre sua atuação em formatos destinados à televisão (comerciais, documentários, making-ofs e programas, além dos vídeos musicais).

Além de I Want to Go Home, outro destaque videoclípico da Hide Park é My Eternity do cantor/instrumentista/ator Benjamin Siksou. Em 2008, o artista francês foi finalista do reality-show Nouvelle Star, o equivalente local do American Idol.

My Eternity é um veículo bastante apropriado para uma estrela francesa em ascensão. As influências musicais estadunidenses do soul, jazz e blues  tão apreciadas na França – são apresentadas como uma jam-session em torno do cantor, que, mesmo estilizada, quer nos lembrar da legitimidade musical do artista (cuja biografia indica uma dedicação precoce à música). Ao mesmo tempo, o clipe investe na boa pinta parisiense do jovem Benjamin, dando especial atenção para sua charmosa cicatriz no rosto. Cool!!



Site oficial da produtora Hide Park (www.hidepark.fr)

sábado, 28 de agosto de 2010

Diretor: Ace Norton (1982- ) – parte 1

Minha lembrança mais clara do trabalho de Ace Norton é Thinking About You, dirigido para a cantora Norah Jones em 2006. No entanto, sempre achei este videoclipe excessivamente tributário do estilo de Michel Gondry, lembrando especialmente Knives Out (2001) do Radiohead. Há, entre os vídeos, evidentes semelhanças: 1) no tipo de atmosfera  fantasiosa construída,  2) na organização algo artesanal da passagem entre acontecimentos e dimensões videoclípicas e, até mesmo, 3) na recorrência a recursos cênicos específicos (vem à mente, por exemplo, elementos como o coração e o trem ).

Obviamente, o estabelecimento de interinfluências artísticas não é a priori problemático ou condenável. No campo do videoclipe, ainda persiste inclusive a expectativa de que o impacto de Gondry não deixe incólumes realizadores de gerações posteriores. Para Norton, haveria também uma motivação complementar para similaridades com o colega francês: o fato dele estar representado pela Partizan, a produtora que acolhe (como rei!) o estimado Gondry.

Mesmo entendendo isso, confesso que  por ter "descoberto" Norton pelo viés de uma pesquisa mais voltada à obra de Gondry – o diretor estadunidense acabou desaparecendo do meu radar. Por um tempo... (continua)

Knives Out (Michel Gondry/Radiohead, 2001):

Thinking About You (Ace Norton/Norah Jones, 2006):